quinta-feira, novembro 11, 2010

# 40 Poemagem



Photobucket
photo by NunoG.









Antes do começo

Antes do nenúfar da origem

Antes da hélice dos tufões ciclópicos

Antes do escancarar da sombra a vazar-se

Antes do golpe de gongue no tímpano do dia

Antes da dança dos fosfenos no nada


Antes

Do inimaginável repouso da energia

No não figuradp o rarescente o denso

Na involução do Ser que não existe

No germe cujo nada é o princípio

Na semente cujo fruto é o nada

Ela dorme


Antes do começo

Antes do nenúfar da origem

Antes da hélice dos tufões ciclópicos

Antes do escancarar da sombra a vazar-se

Antes do golpe de gongue no tímpano do dia

Antes da dança dos fosfenos no nada


Antes

Do inimaginável repouso da energia

No não figurado o rarescente o denso

Na involução do Ser que não existe

No germe cujo nada é o princípio

Na semente cujo fruto é o nada

Ela dorme




Ernesto Sampaio
in
Fernanda

segunda-feira, novembro 08, 2010

# 39 Poemagem

Photobucket
photo by Bjorn Terring





Esquece-te de Mim, Amor



Esquece-te de mim, Amor,
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.




António Mega Ferreira,
in
Os Princípios do Fim

quinta-feira, outubro 28, 2010

# 38 Poemagem

çlkjb

photo by Karl Kleiner





Acento

Vem dos montes friíssimos da Noruega
onde te sonhei para beberes estrelas
e caminhar a custo entre as cascatas
onde a ternura é um escadote
e o ar um caracol de planetas nas órbitas.



António Maria Lisboa

quinta-feira, outubro 21, 2010

# 37 Poemagem

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Photo by Ed Panar




Peço a Paz

Peço a paz
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão

Peço a paz
silenciosamente
a paz a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte

A paz peço
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol

Peço a paz e o
silêncio



Casimiro de Brito
in
Jardins de Guerra

quinta-feira, outubro 14, 2010

# 36 Poemagem

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photo by Lupen Grainne







"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... sei lá de quê!"


Florbela Espanca

quinta-feira, outubro 07, 2010

# 35 Poemagem

p
photo by Andrew Paynter





De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.


E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.


Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.


Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem


Natália Correia





quinta-feira, setembro 30, 2010

# 34 Poemagem


poemagem

photo by Liliroze





Espaço interior


quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.


Vasco Graça Moura

quinta-feira, setembro 23, 2010

# 33 Poemagem

poemagem

Kumi Yamashita






No curso dos anos ambos chegaram por caminhos diferentes à conclusão sábia de que não era possível morar juntos de outro modo, nem se amarem de outro modo: nada neste mundo era mais difícil do que o amor.


Gabriel Garcia Marquez
in
Amor nos tempos de Cólera

quinta-feira, setembro 16, 2010

# 32 Poemagem



poemagem 32
photo by Jon Duenas





AS PALAVRAS


Temor das palavras –
eis algo que aprendi.
Versos que escrevi
versos que queimei.

Da dúvida no meu coração
sussurros crueis começam:
"Fraco, escreves
com uma arte emprestada.

A folha é adorável
quando é branca.
Poupa o espaço para a palavra
que não podes escrever".



Hans Borli

quinta-feira, setembro 09, 2010

# 31 Poemagem

Photobucket
photo by Dolòres Marat



[...]

Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite.Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos se liquefez em duas lágrimas.


Clarice Lispector
in
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres,

quinta-feira, setembro 02, 2010

30 # Poemagem

photo by Leda Cruz








TELEGRAMA

a flor que és não a que dás
eu quero
porque me negas o que te não peço
tempo há para negares depois de teres dado
flor sê-me flor



Pedro Paixão
in
O mundo é tudo o que acontece

sexta-feira, agosto 27, 2010

29 # Poemagem

poemagem27

Photo by Louis Stettner

Ç




Uma cidade


Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.

Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
acesso
numa noite
de Junho

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.


Albano Martins


quarta-feira, agosto 25, 2010


photo by me @ Lisboa
lllll

As palavras preenchem abismos.Constroem pontes de madeira ou aço fino. Somos todos em forma de palavras. As palavras machucam, doem,cortam.Palavras súbitas declaram guerra e palavras esperançosas anunciam a paz. Qualquer palavra é mais do que uma palavras. Há palavras sonoras e palavras murmúrios.Palavras meigas e palavras bruscas. Umas suplicam, outras arrepiam.Em algumas podemos confiar, mas só em algumas.Em geral revelam o que outras apressadamente escondem.Há palavras ditas que nos elevam a alma até ao céu de onde depois rápidas regressam.Sem nunca esquecer as imprescendíveis palavras obscenas. Qualquer palavra dá e tira, junta e separa. Por vezes meia palavra é mais do que suficiente.Cada palavra possui uma oreigem inviolável.Ninguém sabe quem disse a primeira, quanto mais todas as outras que se lhe seguiram.Uma palavra agarra o que a outra repudia.Uma pergunta o que a outra cala.Palavra puxa palavra.Há palavras que se colam à carne, aos lábios, aos sexos floridos. Palavras que desejamos esquecer muito e não é possível.Quem criou uma única palavras que levante o dedo. Só deus conhece a cor de todas as palavras de todos os dicionários de todas as línguas que os têm.Porque há palavras que nunca foram escritas, as mais lindas.É na verdade uma traição escrever uma palavra tentando fixar o imparável espírito que a anima.As palavras vêm do peito, passam pela garganta e desfazem-se no ar esperando que alguém as apanhe com as duas mãos cerradas.Nenhuma nos pertence.
[...]

Pedro Paixão
in
O mundo é tudo o que acontece




quinta-feira, agosto 19, 2010

# 27 Poemagem

poemagem
photo by Simon Wong








Magia


Às vezes parava o tempo
como um levita esquecido
na comunhão.
Parava-o, e ficava atento,
a ver a cor do milagre
a desmaiar-lhe na mão.

Era só erguer a pena
dum verso já começado,
dobrar a ponta da antena
no telhado.

Parava o tempo, e parava
o movimento de tudo;
o povo ficava mudo,
a beleza por cantar;
era um mundo que lembrava
um verso por acabar.


Miguel Torga

sexta-feira, agosto 13, 2010

# 26 Poemagem

poemagem26
photo by Hoy Joy






Variações Goldberg com chuva

Quando estamos sozinhos, as coisas contempladas em silêncio deixam-nos nus. Despem-nos de todas as desculpas e distracções que haviam de proteger-nos. Deixam-nos a sós, perante nós mesmos e a nossa vida, que vemos como uma montanha exclusivamente nossa. Uma espécie de Himalaia só nosso, e condenados a conviver para sempre nos seus cumes. Um Himalaia de perguntas. E nós sozinhos para lhes responder.



Jordi Nadal
in
Tão perto de ti

sexta-feira, agosto 06, 2010

# 25 Poemagem

poemagem 25
photo by Chema Madoz





A máscara da palavra



A máscara da palavra
revela-esconde
o rosto vago
de um sentido mundo

Paraíso acidental
metódico exercício
a máscara da palavra
colou-se ao rosto:
agora é
o nosso mais vital artifício

Com a máscara da palavra
reinventamos
o som da voz amada
que nos inunda
com seu luar de espuma




Ana Hartherly,
in~
A idade da escrita

quinta-feira, julho 29, 2010

# 24 Poemagem

poemagem 24
photo by Alexandria




Antes da palavra


hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido, vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar
de cores e fadas e barcos de sol.
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.

por isso te digo: hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim,devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome.



Vasco Gato
in
Um Mover de Mão

quinta-feira, julho 22, 2010

# 23 Poemagem

poemagem 23
photo by DeCafe





Uma Certa Quantidade



Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro



Mário Cesariny,
in
Pena Capital

segunda-feira, julho 19, 2010


taken by me





"É, de facto, perturbante a ideia de não sabermos onde estamos, de se estar perdido sem poder saber o caminho de casa, de não haver casa à qual possamos regressar com o coração inteiro."


Pedro Paixão

quinta-feira, julho 15, 2010

22 # Poemagem

poemagem22
photo byLucie & Simon



E por vezes



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes


encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos corpos encontramos



E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mourão Ferreira

quarta-feira, julho 14, 2010

21 # Poemagem

poemagem 21
Photo by Aidan Radford





Devagar




devagar
setembro
entorna luz na planície

devagar
o vento
inventa choupos

e choupos
devagar
tornam-se rio

devagar cavalos surgem galopando
erguem brancas as cabeças
respiram verdes a claridade
E depois seguem
devagar
pelos túneis de luz




Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
in
O Afastamento Está Ali Sentado

quinta-feira, julho 01, 2010

# 20 Poemagem

poemagem 20
photo by Elisa Dudnikova






SEM DATA



Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.

Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.

Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.

Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.




Jorge de Sena
in Perseguição

sábado, junho 26, 2010

# 19 Poemagem


photo by Brigitte Heinsch



»


Mas que sei eu




Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?
Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono
Nenhum súbito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha
qualquer. Mas eu sei que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha



Ruy Belo,
in
Todos os poemas

quarta-feira, junho 23, 2010

porto
taken by me _Porto


«


Sob a máscara que nos mascara, há estilhaços da realidade que nos ferem

quinta-feira, junho 17, 2010

# 19 Poemagem

poema 19
photo by
Erik Wahlstrom





AS GRANDES PALAVRAS

(a Antonio Porchia)




ainda não é agora
agora é nunca
ainda não é agora
agora e sempre
é nunca




Alejandra Pizarnik
in
O Mel do Melhor

segunda-feira, junho 14, 2010

antiquario
taken by me_Porto



Basta de estrelas
e de nuvens
e de pássaros.
Falemos antes de gaiolas
que é tempo de conquistar o céu.
Ant. Ramos Rosa


quinta-feira, junho 10, 2010

Poemagem # 18

Photobucket
taken by Tina Crespo

*



Mar





Ventos instáveis, gaivotas sobre
os molhes. A rebentação fixa-se
no ouvido. O som da água
nas fissuras da rocha, os gritos
que se perdem nas praias.



Barcos ancorados
na floresta



Nuno Júdice
in
Pedro lembrando Inês

quarta-feira, junho 09, 2010


taken by me _Porto

*
*

"A poesia continua sempre presente:às vezes apenas num verso e ultimamente cada vez mais no silêncio"

Jorge de Sousa Braga

quinta-feira, junho 03, 2010

# 17 Poemagem

Photobucket
pohto by Bjorn Terring




Havia hoje, ao entardecer, loucos bandos de pássaros voando nos
céus da minha cidade. Iam para Sul, eu sei. E como entendo a sua
fuga!




Manuel Jorge Marmelo
in
O Porto : orgulho e ressentimento

sexta-feira, maio 28, 2010

# 16 Poemagem

interludio  20maio
photo by Mariana Newlands








Quando aqui não estás



o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussuro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador




Al Berto

sábado, maio 22, 2010

biblioteca sintra
Photo by me ( Sintra)






Não .....me ..... demores
Não .......me..........embrulhes na voz

sexta-feira, maio 21, 2010

# 15 Poemagem

p
photo by Erica Shires





Um dia sem esperar, entraste na minha janela
vida como as aves entram pelas janelas,
sem querer.

Este “sem querer” ficou entre nós.





Lídia Martinez,
in
Um adeus perfeito

quinta-feira, maio 13, 2010

# 14 Poemagem


photo by Adriana O.




pergunto se posso dizer o teu nome a uma flor
flor o teu nome sussurrado pétala a pétala
letra a letra uma flor desfolhada na terra



José Luís Peixoto
In
A Criança em ruínas,2007







segunda-feira, maio 10, 2010

Até sempre

Ao António
( até sempre meu querido amigo)




fp
Photo by me







A morte chega cedo


A morte chega cedo,
Pois breve é toda vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.

E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.



Fernando Pessoa

quinta-feira, maio 06, 2010

# 13 Poemagem


photo by Janne Peters






E, se de repente
voassem dos teus olhos
duas pombas azuis?


Então sim, poeta,
cairia pela primeira vez no mundo
o espanto da primavera completa!












José Gomes Ferreira
in
Poeta militante, 1º volume


sexta-feira, abril 30, 2010

# 12 Poemagem



Photobucket
photo by Tyler E. Nixon




Cada árvore é um ser em nós



Para ver uma árvore não basta vê-la
uma árvore é uma lenta reverência
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses


António Ramos Rosa

sexta-feira, abril 23, 2010

# 11 Poemagem


photo by Leda Cruz









FOMOS MANHÃ

Fomos manhã,
fomos manhã e
despimo-nos,
vestindo-nos apenas da cor azul

Fomos manhã,
fomos manhã na natureza
perdidos num bosque
onde o negro lentamente
se deixou substituir pela cor grená

Fomos manhã,
fomos manhã e bebêmo-nos
como se fôramos àgua,
como se fôramos sumo
escorrendo-nos nos dedos,
molhando-nos a pele

Fomos faunos,
fomos verdes,
fomos de todas
as cores da manhã

Fomos manhã
e sumimo-nos…



Poema inédito de Alexandra Malheiro
( com um obrigada especial por o ter disponibilizado*)






terça-feira, abril 20, 2010

sábado, abril 17, 2010

# 10 Poemagem

poemagem10
Photo by Robert Vizzini




Espuma Calcária


Toda a inércia
Se reduz ao movimento
Dos telhados caiados
Pelo vento




Daniel Faria,
in Poesia, Edições Quasi

sexta-feira, abril 09, 2010

Poemagem # 9


photo by Adriana O.





O problema de ser norte



Era um verso com árvores à volta.
Tinha o problema de ser norte
e dia e tão contrário à natureza.
Era um verso sem ar livre
mas com árvores em círculo
e eu no centro, em baixo, nas escadas
de pedra, cheia de verde e de frio
e a pensar que continuo a não entender
a natureza contrária aos meus olhos.
Pois se as árvores são a única
paisagem deste verso, a toda a volta,
e eu no fundo, em baixo, nas escadas
de pedra ainda, se voltando-me, morrendo,
serão elas ainda a única paisagem deste verso,
como poderei amá-las
sem que

um
raro
silêncio ainda

me interrompa?



Filipa Leal,
in O Problema de Ser Norte,
Editores, 2008

quinta-feira, abril 01, 2010

# 8 Poemagem

velas
foto de Brian W. Ferry


Gasto a noite a escrever recados.O envelope estremece
no fogo oculto das mãos. As palavras aguçadas na pequena
chama dos ourives morrem de bolor.Seta inútil num estojo
de vaidades.

+

Alberto Serra
in

O Aparo do Demónio
....


quinta-feira, março 25, 2010

# 7 Poemagem

foto de
Eduardo Oliveira




Como saber de que matéria
é feito o olhar?
Acaba aqui
a luz gémea da tua boca,
mas assim
vê-se melhor a espuma do crepúsculo.
pp
Eugénio de Andrade
in
O Peso da Sombra

quinta-feira, março 18, 2010

# 6 Poemagem

# 6

photo by Josef Koudelka






O valor do vento


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto



Ruy Belo,
in
Todos os poemas,

quinta-feira, março 11, 2010

# 5 Poemagem

poemagem 5
foto de Polly Wreford
*
ª
depois do frio ainda
quatro.
ela abre a janela do quarto, corre
até à janela e diz-me:
«olha como neva lá fora - vês?»
;
;
Vasco Gato
in
Um mover de mão,
Assírio & Alvim

sexta-feira, março 05, 2010

# 4 Poemagem

poemagem 4

foto de
Elisa Lazo de Valdez





A NOITE-VIÚVA

Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa

Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalho
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante

Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia
Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.


Alexandre O´Neiil
in
Poesias Completas

domingo, fevereiro 28, 2010

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photo by me * Porto


À FLOR DA PELE

Nunca vi nervos à flor da pele, mas sinto
a doçura do pólen e deixo a língua escorregar
pelo teu cortp.Dizem que os nervos se reflectem
nos intestinos. A flor dos intestinos cura-se
com a flor do iogurte. É um universo completo:
da flora à fauna intestinal, de dobra em dobra,
a vista da montanha, a festa dos vales
e pequenos seres despertando
no côncavo, no invisivel cheio de promessas.
Deve ser terrível ter os nervos à flor da pele,
acalmá-los com massagens suaves até murcharem
ou então deixar os nervos à superfície
como um ouriço-cacheiro, um ouriço-do-mar
se viver no litoral. É um mundo perigoso.
São horas. Levo a minha pele à rua
presa pela corrente do relógio.


Rosa Alice Branco

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

# 3 Poemagem

Photobucket

foto de Elena Ciobanu



O GUARDA - RIOS

É tão difícill gardar um rio
quando ele corre
dentro de nós.


Jorge de Sousa Braga
"O Poete Nu"
[ poesia reunida]
Assírio & Alvim

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

# 2 Poemagem

Photobucket
foto de
Simon Wong




nossa senhora das andorinhas cansadas

no beiral do café, enquanto confessámos
ideias sórdidas sobre as pessoas bonitas,
pousavam as primeiras folhas de outono.
pensámos que as pessoas bonitas deviam
conferir trocos pequenos em lojas de
bairro e que, por uma moeda maior, nos
vendessem corpo e alma sem grande resistência.
pensámos que as folhas de outono, entristecendo
o café, deviam subir com o vento e
encalhar nas nuvens. em alto mar, se as nuvens
se cansassem, poderiam ser largadas
longe dos nossos corações predadores mas
tão aflitos com o amor. no inverno, pensámos,
não sermos amados é como estar na fila para
morrer. olhámos em redor e nada


valter hugo mãe
in
pornografia erudita
*
cosmorama edições

domingo, fevereiro 14, 2010

# 1 Poemagem


Duas bloguers que amam as mesmas formas de Arte.
Uma ideia que tornou forma.Uma proposta aceite.
Uma partilha feita de Poemas e Imagens.
Aconteceu #Poemagem no
O Tempo e o deserto.
Uma "Oficina" onde ambas "vestimos" poemas com imagens, e imagens com poemas.
Cada uma de nós, alternadamente, tem esse compromisso.
Obrigada
Dri por me convidares para este desafio!


foto de George Song
*
*

Onde não pode a mão

Como se uma estrela hidráulica arrebatada das poças.
Tu sim deslumbras, Por coroação:
por regiões activas de levantamento:
por azouge da cabeça,
Brilhas pela testa acima,
Ceptro : potência - ah sempre que o chão crepita
dos charcos de ouro,
E no corpo trancando a veias
e nervos : o sangue que se afunda e faz tremertudo, Tocascom um arrepio de unha a unha
o mundo, Pontada
que te abre e aumenta
ou
- onde se um troço dessa massa
intestina: e como respirada: às queimaduras
primitivas - Boca:sexo: vivezadas tripas: uma glândula que te move
ao centro, Amadureces como um ovo, Na traça carnal: todocom um golpe com muita força para dentro
Cortaram pranchas palpitando de água:
fincaram-nas,Montaram esta casa: suas membranastrémulas: a potência
do chão, Este astro opulento entreaberto
pelas labaredas,
Com uma chaga na camisa: grita,
Há alguém que grita com uma imagem
em combustão saída
do corpo: comoa parte de fora de um planeta,
Que se não toque nunca nas bolsas onde
pulsa a água,
Que se não toque nas torneiras
onde se ata o gás:nos pontos
de tensão por onde o gás rebenta,
A morte está tapada em qualquer parte
dos dedos
enredados em qualquer parte
da matéria
tremenda sob os dedos, A matéria que mata
por fogo ou afogamento,
E na garganta como o ar faz o som
a morte faz um grito:
um estrangulamento, O gás brilha muito:
a água brilha:
no interior de tudo brilha tanto
o medo
como uma força, Respirando: ahjubilação da cara: o sangue dentro
na sua malha sensívelcanta canta, O lirismo é louco: aterra,
O tronco:
a dor de um músculo
arroteado
fremindo,Este uso
luminoso imposto ao mundo
das paisagens, Assim sobre o pescoço
dispõe-se disto - carne
martelada por fluxos e refluxos entre
as formas e o assombro,
A comida por exemplo há que tragá-la,
Há que escoar a água
pelos ralos
da terra: ou entre os braços côncavacomo uma estrela há que
sustê-la, Há que sorver veneno gás: umdelírio tóxico,Há
que ter a transparência da morte,
É preciso ser dental: ter entranhas: ser igualao furor das coisas:
da metáfora
das coisas, Um pouco de acrescento
manual ao raio que destroça
a mão, Ou engolir no tubo assoprado
tanto
do ar do fundo, Há que ser
ferramenta de música.

Herberto Helder
in
Ou o poema contínuo,
Assírio & Alvim, Set 04