quarta-feira, fevereiro 17, 2016

Todo o presente espera pelo passado...

Todo o presente espera pelo passado...
"Há vária gente que não gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina prática e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado é reaccionário. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele é preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado é a ternura e a legenda, o absoluto e a música, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evocação. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. Há a filtragem do tempo para purificar esse presente até à fluidez impossível, à sublimação do encantamento, à incorruptível verdade que nele se oculta e é a sua única razão de ser. O presente é cheio de urgências mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro já se lhe toca com a mão. Há tanto que ter vida ainda, quando já se a não tem... "


Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 5'  

sexta-feira, janeiro 08, 2016

@

"E isto te parece estranho
por isso essa palavra
uma só, nada desajeitada de tamanho certo
a palavra em laço
onde embrulhaste o mundo
e eu digo-te nas tuas palavras
que hão-de ser líquidas um dia
que o amor é tudo o que existe
não é tudo o que sabemos do amor"

£££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££

"O louco tem asas, o místico tem asas, o óbvio pode voar"


££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££££3

"os teus braços não são teus
são duas rezas minhas"

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@



"(...) 
devo ignorar noites de cidades gravadas nos pulsos
ser navio que cavalga
e ter milhares de portos para descarregar o mundo
cantar mais alto que a matéria sem vontade
soprar devagar onde escureça
e deixar que a luz oscile em cada olhar cruzado
sem o querer descruzar
devo ser feliz à desgarrada
operário de um só pulsar
e não denunciar os sinos"


Joana Espain
 in 
"Entanglement", (Textura Edições, 2015)