terça-feira, setembro 04, 2012



photo by me



O silêncio pendura-se nas últimas palavras;
naquelas que só soubeste dizer enquanto esperavas
que o descanso te arrefesse,
nessa tua forma de estar não estando.
.
Prefiro o frio da palavras ao calor da ilusão...





quarta-feira, junho 20, 2012

"Como é que se Esquece Alguém que se Ama?"





"Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. "



Miguel Esteves Cardoso,
in
'Último

terça-feira, maio 01, 2012

terça-feira, março 27, 2012

Depois de ti

Photobucket
photo by me





Depois de tio dilúvio: esgotaram-se as imagens e não posso mudar o que diziam:


há um esvaziamento, uma degradação,que em pouco tempo tornamo real absoluto no real possível:

e nunca mais hei-de sentir o mundotão alto como os versos e não o contrário,e nunca mais poderei dizer a ninguém:

os teus olhos são tão belos como os teus olhos.




Pedro Mexia, “Menos por Menos”





sábado, fevereiro 11, 2012

Ecrã

japoneiraphoto by me





não posso ficar mais tempo, querem fechar a sala


as cortinas fecham-se sobre o ecrã





e de resto a tua mão abandona-me aos poucos


caída no veludo coçado das cadeiras





enquanto o umbigo seca de saliva


a minha boca desloca-se do teu sexo


como a última imagem triste


do final feliz que nunca vimos





é tudo um súbito clarão


iluminado como uma polaroid antiga


talvez chova lá fora agora





e o amor seja um coração lavado


por dentro da água sem nenhuma imagem





bem sabes que não posso ficar mais tempo


e a sala está já fechada




Nuno Falber

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

Doçura

serralves

photo by me @Serralves



[..]




OS dias côncavos, os quartos alagados,as noites que crescem
nos quartos.




É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os barços.E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites
corta pelo meio





o abraço da nossa morte.Os fulcros das caras
um pouco loucas




engolfadas, entre as mãos sumptuosas.





A doçura mata.




A luz salta às golfadas.
A terra é alta.











Tu és o nó de sangue que me sufoca.











Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões











da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta.E como estrelas











duplas











consanguíneas, luzimos deum para o outro











das trevas.











Herberto Helder