sexta-feira, agosto 27, 2010

29 # Poemagem

poemagem27

Photo by Louis Stettner

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Uma cidade


Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito.

Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
acesso
numa noite
de Junho

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.


Albano Martins


quarta-feira, agosto 25, 2010


photo by me @ Lisboa
lllll

As palavras preenchem abismos.Constroem pontes de madeira ou aço fino. Somos todos em forma de palavras. As palavras machucam, doem,cortam.Palavras súbitas declaram guerra e palavras esperançosas anunciam a paz. Qualquer palavra é mais do que uma palavras. Há palavras sonoras e palavras murmúrios.Palavras meigas e palavras bruscas. Umas suplicam, outras arrepiam.Em algumas podemos confiar, mas só em algumas.Em geral revelam o que outras apressadamente escondem.Há palavras ditas que nos elevam a alma até ao céu de onde depois rápidas regressam.Sem nunca esquecer as imprescendíveis palavras obscenas. Qualquer palavra dá e tira, junta e separa. Por vezes meia palavra é mais do que suficiente.Cada palavra possui uma oreigem inviolável.Ninguém sabe quem disse a primeira, quanto mais todas as outras que se lhe seguiram.Uma palavra agarra o que a outra repudia.Uma pergunta o que a outra cala.Palavra puxa palavra.Há palavras que se colam à carne, aos lábios, aos sexos floridos. Palavras que desejamos esquecer muito e não é possível.Quem criou uma única palavras que levante o dedo. Só deus conhece a cor de todas as palavras de todos os dicionários de todas as línguas que os têm.Porque há palavras que nunca foram escritas, as mais lindas.É na verdade uma traição escrever uma palavra tentando fixar o imparável espírito que a anima.As palavras vêm do peito, passam pela garganta e desfazem-se no ar esperando que alguém as apanhe com as duas mãos cerradas.Nenhuma nos pertence.
[...]

Pedro Paixão
in
O mundo é tudo o que acontece




quinta-feira, agosto 19, 2010

# 27 Poemagem

poemagem
photo by Simon Wong








Magia


Às vezes parava o tempo
como um levita esquecido
na comunhão.
Parava-o, e ficava atento,
a ver a cor do milagre
a desmaiar-lhe na mão.

Era só erguer a pena
dum verso já começado,
dobrar a ponta da antena
no telhado.

Parava o tempo, e parava
o movimento de tudo;
o povo ficava mudo,
a beleza por cantar;
era um mundo que lembrava
um verso por acabar.


Miguel Torga

sexta-feira, agosto 13, 2010

# 26 Poemagem

poemagem26
photo by Hoy Joy






Variações Goldberg com chuva

Quando estamos sozinhos, as coisas contempladas em silêncio deixam-nos nus. Despem-nos de todas as desculpas e distracções que haviam de proteger-nos. Deixam-nos a sós, perante nós mesmos e a nossa vida, que vemos como uma montanha exclusivamente nossa. Uma espécie de Himalaia só nosso, e condenados a conviver para sempre nos seus cumes. Um Himalaia de perguntas. E nós sozinhos para lhes responder.



Jordi Nadal
in
Tão perto de ti

sexta-feira, agosto 06, 2010

# 25 Poemagem

poemagem 25
photo by Chema Madoz





A máscara da palavra



A máscara da palavra
revela-esconde
o rosto vago
de um sentido mundo

Paraíso acidental
metódico exercício
a máscara da palavra
colou-se ao rosto:
agora é
o nosso mais vital artifício

Com a máscara da palavra
reinventamos
o som da voz amada
que nos inunda
com seu luar de espuma




Ana Hartherly,
in~
A idade da escrita