quinta-feira, julho 01, 2010

# 20 Poemagem

poemagem 20
photo by Elisa Dudnikova






SEM DATA



Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.

Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.

Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.

Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.




Jorge de Sena
in Perseguição

1 comentário:

Eu, Lu disse...

Há coisas que as palavras nunca conseguirão explicar...os gritos do silêncio e o farfalhar de asas dos anjos...
bjssssssssssssss