quinta-feira, julho 29, 2010

# 24 Poemagem

poemagem 24
photo by Alexandria




Antes da palavra


hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido, vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar
de cores e fadas e barcos de sol.
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.

por isso te digo: hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim,devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome.



Vasco Gato
in
Um Mover de Mão

quinta-feira, julho 22, 2010

# 23 Poemagem

poemagem 23
photo by DeCafe





Uma Certa Quantidade



Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro



Mário Cesariny,
in
Pena Capital

segunda-feira, julho 19, 2010


taken by me





"É, de facto, perturbante a ideia de não sabermos onde estamos, de se estar perdido sem poder saber o caminho de casa, de não haver casa à qual possamos regressar com o coração inteiro."


Pedro Paixão

quinta-feira, julho 15, 2010

22 # Poemagem

poemagem22
photo byLucie & Simon



E por vezes



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes


encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos corpos encontramos



E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos



David Mourão Ferreira

quarta-feira, julho 14, 2010

21 # Poemagem

poemagem 21
Photo by Aidan Radford





Devagar




devagar
setembro
entorna luz na planície

devagar
o vento
inventa choupos

e choupos
devagar
tornam-se rio

devagar cavalos surgem galopando
erguem brancas as cabeças
respiram verdes a claridade
E depois seguem
devagar
pelos túneis de luz




Daniel Maia-Pinto Rodrigues,
in
O Afastamento Está Ali Sentado

quinta-feira, julho 01, 2010

# 20 Poemagem

poemagem 20
photo by Elisa Dudnikova






SEM DATA



Esta voz com que gritei às vezes
não me consola de só ter gritado às vezes.

Está dentro de mim como um remorso, ouço-a
chiar sempre que lembro a paz de segurança estulta
sob mais uma pedra tumular sem data verdadeira.

Quando acabava uma soma de silêncios,
gritava o resultado, não gritava um grito.

Esta voz, enquanto um ar de torre à beira-mar
circula entre as folhas paradas,
conduz a agonia física de recordar a ingenuidade.

Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.




Jorge de Sena
in Perseguição