quinta-feira, março 25, 2010

# 7 Poemagem

foto de
Eduardo Oliveira




Como saber de que matéria
é feito o olhar?
Acaba aqui
a luz gémea da tua boca,
mas assim
vê-se melhor a espuma do crepúsculo.
pp
Eugénio de Andrade
in
O Peso da Sombra

quinta-feira, março 18, 2010

# 6 Poemagem

# 6

photo by Josef Koudelka






O valor do vento


Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto



Ruy Belo,
in
Todos os poemas,

quinta-feira, março 11, 2010

# 5 Poemagem

poemagem 5
foto de Polly Wreford
*
ª
depois do frio ainda
quatro.
ela abre a janela do quarto, corre
até à janela e diz-me:
«olha como neva lá fora - vês?»
;
;
Vasco Gato
in
Um mover de mão,
Assírio & Alvim

sexta-feira, março 05, 2010

# 4 Poemagem

poemagem 4

foto de
Elisa Lazo de Valdez





A NOITE-VIÚVA

Uma pequena angústia sentida nos joelhos
Como o bater do próprio coração
E é a noite que chega
Não a noite-diamante
Mas a noite-viúva a noite
Sete vezes mais impura do que eu
Em passo obsceno em obscena força
Minúscula perversa venenosa

Escrevo o teu nome
Noite de amor que de longe me defendes
Escrevo o teu nome contra a noite obscena
Que a meu lado espera seduzir-me
Levar-me consigo
À porca solidão onde trabalho
À insónia sem margens ao vinho solitário
Duma pequena angústia
Escrevo todos os teus nomes
Puxo-os para mim tapo-me com eles
Na noite da surpresa
Noite feroz da surpresa
Noite do amor atacado de perto e conseguido
Alto e convulsivo
Noite dos amantes deslumbrados
Iluminados pelo demónio mais puro
Noite como uma punhalada ritual no invisível
Noite da vítima-triunfante

Escrevo o teu nome a meu favor e contra
Esta noite este murmúrio esta invenção atroz
A que chamam o dia-a-dia
Estas quatro minúsculas patas
Venenosas da angústia
Escrevo o teu nome cruel
Puro e definitivo.


Alexandre O´Neiil
in
Poesias Completas