terça-feira, abril 29, 2008

"Para pintar o retrato de um pássaro.
Primeiro pinte uma gaiola
com a porta aberta.
Depois pinte
algo gracioso
algo simples
algo bonito
algo útil
para o pássaro.
Então encoste a tela a uma árvore
em um jardim
em um bosque
ou em uma floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover...
Às vezes o pássaro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos, se for necessário.
A rapidez ou a lentidão do pássaro
não influi no bom resultadodo quadro.
Quando o pássaro aparecer
se ele o fizer
observe no mais profundo silêncio
até ele entrar na gaiola
e quando ele assim agir
delicadamente feche a porta com o pincel.
Então,apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar na plumagem do pássaro.
Em seguida, pinte o retrato de uma árvore
escolhendo o mais bonito de seus galhos
para o pássaro.
Pinte também a folhagem verde e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas, na relva,
sob o calor do verão.
E então espere até que o pássaro decida cantar.
Se ele não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza,
você arranca
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome em um canto do quadro. "

*

Jacques Prévert




portopp taken by me @ .....................algures numa rua @ Porto
---

Até aqui os pássaros vomitam o teu nome.
É sonante...mas vem vazio de ti...

sexta-feira, abril 25, 2008




A noite devia ter um cadeado contra todos os medos .
Irrisoriamente toma-nos a loucura...


Foto de Cristina Cruz #### :))
ver aqui

*



"A noite - a hora em que tudo é imenso como um olhar cego. A hora em que estamos a sós connosco, com esta coisa terrível que somos nós por dentro de nós vivissimos e não há público para nos ajudar"
.



Vergílio Ferreira


in
Em nome da terra




quinta-feira, abril 10, 2008

MOLHE
Foz do Douro_molhe
Porto





FOTOGRAFIA DO PORTO
*
O Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.
.
José Luís Peixoto
in
"Gaveta de Papéis"
*


Roubado daqui Quintas de Leitura