terça-feira, novembro 28, 2006


Foto de Bruno Espadana / tirada daqui
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YOU ARE WELCOME TO ELSINORE
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Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
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MÁRIO CESARINY (Lisboa, 1923)Pena capital (Assírio e Alvim)

domingo, novembro 19, 2006

# eram folhas,o que resvalava do meu parapeito.tinham o teu nome em negrito? talvez.já as utilizei para embalar recordações; não as memórias, que para essas não há baús em sotck
"O silêncio (...) não somos gente a ouvi-lo, é ele a ouvir-nos a nós, esconde-se na nossa mão que se fecha, numa dobra de tecido, nas gavetas onde nada cabe salvo alfinetes, botões; pensamos "vou tirar o silêncio dali" e ao abrir as gavetas o outono no lugar do silêncio e (...)"

A. Lobo Antunes in Ontem não te vi em Bablónia

quarta-feira, novembro 01, 2006




taken by me

Shakespeare podia ter vivido aqui.Podia
ter dançado na noite de S.João,quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam.Podia ter escrito
nos invernos de ausência o que a noite
ensina sobre a privação.Podia ter
ensinado, à beira do cais,que o tempo lascivo
corre como a água, levando o que não há-de
voltar e trazendo o que unca terá nome
nem corpo.
[...]
Nuno Júdice