quarta-feira, janeiro 26, 2005


taken by SombArredia





Sós
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós e ninguém nos conhece
(...)
Os astros não se explicam; arrefecem.
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se dentro se refracta,
nenhum ser se transmite.
Quem tenta o sofrimento sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o sofrimento sou eu e mais ninguém.
Quem estremece neste meu estremecimento sou eu só e mais ninguém.

Dão-se os lábios,dão-se os braços, dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mim; segredos dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, dão-se os dias, dão-se aflitivas esmolas;
(....)
dão-se os nervos, dá-se a vida, dá-se o sangue gota a gota, com uma braçada rota.
Dá-se tudo e nada fica.
(...)



António Gedeão

3 comentários:

João Garcia Barreto disse...

Como é que uma pessoa que lidava com as fórmulas matemáticas como ninguém, transcrevia tão belas palavras em poemas divinais?

Anónimo disse...

"Sim que somos sempre sós dentro de nós..."

S.M.

--,-<@

Cimbalina disse...

Tocas os dedos na luz...e ela não te aquece!