sábado, dezembro 04, 2004







O impossível grito
Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me e eu te pudesse olhar
- aqui onde escrevo e nada principia
Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo
Se escrevo ou falo é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é auém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro
E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures emparedado
e crê que um grito algém ainda ouviria
E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível
Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
_________________António Ramos Rosa

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