sábado, novembro 13, 2004


V. Nova de Mil Fontes
__miradouro





Nuvens



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
A fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
Os amigos mais íntimos com um cartão de convite
Para o ritual do grande do Grande Desfazer: "fulano de tal comunica
a V. Ex.a. que ai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
Foi assim contigo?
Sentiste-te cansada?
:(
....No outro dia falei com uma Nuvem, sabem?
que me falou coisas sábias...
:)

2 comentários:

Cimbalina disse...

O Grande Zé Gomes, o eterno poeta, que dizia que "viver sempre também cansa". Que enorme ternura me transmite esse poema. E o que eu gosto de núvens...

como a manhã disse...

Acomodação ao cansaço...ao próprio e constante cansaço. E às vezes nem uma nuvem para nos dizer a paz.