domingo, novembro 28, 2004







"o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido."
________José Luís Peixoto in "A criança em ruínas"

o meu Porto...

"Quando o comboio se aproxima da cidade, humedece-me o olhar e o corpo é varrido por um fio estranho, ao ver as casas derramadas sobre o Douro. As escarpas rasgam o céu pousado sobre as torres e abrem-se para o intenso correr de janelas onde o sol transforma cada vidro em espelho dos rumores do rio."

E porque há sempre restos de palavras que ficam sós no conquistar da estrada, e que não as dizemos por desdém ao tempo.
E porque há sempre pinhais mais frescos no decorrer de uma viagem, que acabamos por guardar no nossso lado esquerdo.
Eu conheci essa viagem e não me deste tempo de te amar...
obrigada mesmo assim *






Trago dentro do meu coração
Como num forte que não se pode fechar de cheio
Todos os lugares onde estive
Todos os portos onde cheguei
________Álvaro de Campos



[...]
you can run from love
and if it´s really love it will find you
[...]

U2 "A man and a woman"

quinta-feira, novembro 25, 2004

Naquela tarde

O livro estava ali,parado, de capa brilhante e apelativa a olhar p´ra mim.
Quieto na sua forma de estar.
Ausente da luz de neon que transfigurava as feições e ausente da música que lutava por sobreviver numa morna tarde de Outono.
O livro conseguiu os seus ensejos : cativou-me e fez-me seu no acto de o desfolhar ternamente e medrosamente.
O livro permaneceu presente naquela estante, naquela prateleira,naquela livraria esperando cativar outra "vítima" ávida de poesia como eu.





tinta da china sobre papel Canson

Sugiro uma visita ao site deste senhor,dono desta bela frase :)
http://www.valterhugomae.com




metrostairs? who knows?



"... Há noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo."
_________________Natália Correia, um excerto do poema "Sete Luas"



Porto_____ Num passeio distante

Cidade manuseada de mensagens que busco ainda ao caminhar

dá-me tudo
tu
que conheces o meu pesar...



Porto numa tarde_ __ Miragaia





ou "talvez porque..."
se eu entornar tudo por cima do vazio que em mim existe
sobrará sempre este sopro...
este sopro de verdade.




domingo, novembro 21, 2004

E porque ao ler um poema lindissímo num blog de uma amiga...
" Qual de ti "
:)



aguarela e tinta da china

hoje acordaste de uma forma diferente dos outros dias
sentes-te estranho
tens as mãos húmidas e frias
tentas lembrar-te de algum pesadelo
mas o esforço é em vão
parece-te ouvir passos dentro de casa
mas não sabes de quem são

deixas o quarto
e vais à sala espreitar atras do sofa
mas aí tu já suspeitas que os fantasmas não estão lá
vais à janela e ao olhares para fora
sentes que perdeste o teu centro
e de repente descobres
que chegou a hora de olhares para dentro

porque há qualquer coisa que não bate certo
qualquer coisa que deixaste para trás em aberto
qualquer coisa que te impede de te veres ao espelho nu
e não podes deixar de sentir que o culpado és tu

vês o teu nome escrito num envelope
que rasgas nervosamente
tu já tinhas lido essa carta antecipadamente
e os teus olhos ignoram as letras
e fixam as entrelinhas
e exclamas: "mas afinal... estas palavras são minhas!"

o caminho para trás está vedado
e tens um muro à tua frente
e quando olhas pros lados vês a mobília indiferente
e abandonas essa casa
onde sentiste o chão a fugir
arquitectas outra morada,
mas sabes que estás a mentir

(Jorge Palma in Balada de um estranho).

sábado, novembro 20, 2004


Porto_ ao acordar

estranha é a cidade sem o teu rosto - vazia.
(...)
estranha é a cidade sem o teu toque - despida.
(...)



quarta-feira, novembro 17, 2004

O silêncio visto de cima tem este aspecto.
Moroso e indulente como a chama que luta por vencer...
até que num ápice se consome
e apaga a pessoa a quem iluminou até então.





"Ninguém, me contou que o silêncio era o significado das palavras muito verdadeiras"
________________________@José Luís Peixoto

sábado, novembro 13, 2004


V. Nova de Mil Fontes
__miradouro





Nuvens



Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
A fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
Os amigos mais íntimos com um cartão de convite
Para o ritual do grande do Grande Desfazer: "fulano de tal comunica
a V. Ex.a. que ai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
Foi assim contigo?
Sentiste-te cansada?
:(
....No outro dia falei com uma Nuvem, sabem?
que me falou coisas sábias...
:)

sexta-feira, novembro 12, 2004



Imaginei-te recolhido entre paredes de pedra marcadas com os nomes e as demoras...
Procuro nas gavetas pedaços esquecidos de mim...
Perguntas-me se são gravuras ou pinturas o que eu procuro - e eu respondo - eram beijos.
Fechas a porta com o estrondo d o vento que derrubou as palavras.
Entrei.
...............................................................................
Presinto que um dia das tuas mãos saia um pássaro que não mais voe...

terça-feira, novembro 09, 2004

take1


hoje acordei com a dor dos dias gastos.terrivelmente gastos.
permanecer nos dias.
ficar nos dias
........................
talvez eu saía disto.
talvez amanhã o sol doa menos

segunda-feira, novembro 08, 2004


Icarus fall


cair
cair
cair
cair até quando?
sou eu que estou a cair e não os outros



Ai se um dia pensares em voltar
Deixa-te ficar porque eu não esqueci
Mas, se um dia, deixar de lembrar
Parado a chorar, por ti... tanto faz
Hoje eu sei
No teu olhar sem perdão
Quando um dia, o que der e vier
For tudo o que eu quiser
Talvez seja então
Quando havia a voz para dizer
E o que acontecer
Eterno desta vez
Tudo o que eu guardei
Já quis achar
Mas perdi...
Trago o negro nos olhos pintado
A dor no peito escondida
O riso na boca inventado
Como te inventei a ti
Deixa lá o tempo
Deixá-lo fugir
Pois cada momento
Me faz descobrir
Trago o negro nos olhos pintado
A dor no peito escondida
O riso na boca inventado
Como te inventei a ti
Como eu te inventei...
__________________________________@Um Zero amarelo in Sem Perdão


sábado, novembro 06, 2004

...E porque a esta hora, eu devia estar a tomar um café oferecido por uma outra Sombra,que não eu,(sim, é p´ra ti Ss) e à qual eu presto desde já o meu obrigado, pelo facto de mais uma vez a tua argúcia não te ter deixado mal e de me ter "nickado" com este nome que tão bem me assenta...
...E porque a foto do Post anterior me avivou a saudade...
...E porque todos os dias não chegam...
..E porque hoje tive o privilégio de escutar alguém, que tão bem soube dizer poesia dessa grande senhora chamada Sophia de Mello B. Andresen, ficando-me na memória esta....e apenas esta frase de um dos seus poemas:
" O Porto é o lugar

onde para mim
começam
todas as maravilhas
e todas as angústias"
...Ou porque simplesmente todos os agradecimentos à pessoa que me "mostrou" essa cidade nunca serão demais...
*

SombrArredia

Pooooortooo ;)


Foto cedida por Teresa Cruz


Querias ter a certeza que regressavas ao nosso Portugalzinho e que deixavas p´ra trás aqueles simpáticos camelos,não era?
(eu tb hei-de fazer uma passeata de camelo lá pelas Áfricas ehheeh)
Ainda bem que espreitaste pela janela :)
brigada krida*

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar


Só por ter dois sóis
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
E chamei casa a esse lugar


E anda sempre alguém por lá
Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão


Só por inventar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir


E anda sempre alguém por lá Junto à tempestade
Onde os pés não têm chão
E as mãos perdem a razão

Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Eu sei que nenhuma vai ganhar



Jorge Palma



E vale a pena dar uma espreitadela ao site deste senhor...

sexta-feira, novembro 05, 2004


para onde?



Abriste a persiana e fizeste o que eu te pedi Ss?





"A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura
Ora amarga! ora doce
Pra nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura... "

quarta-feira, novembro 03, 2004



Na sequência de uma conversa com uma amiga sobre contrabaixistas, cordas e outras coisas mais,veio o ímpeto de passar este pretenso poema




Fala de um contrabaixo




O tempo revestiu-se de ti.
É nu. Cruel a madrugada que
desperta, inerte.
Soam soluços desvairados
de compassos.
Assim te recordo, ao abraço
que me prende, sempre que
a mim recorres.
Abraça-me como se fosse
a última dança...aquela que
nunca se deu.
Sou um braço, de madeira
feito de luta e de cansaço.
Sou alma, de ti, e de quem
a mim escuta.
Escuro é o compasso com o palco.
Só a ti te toco e só tu a mim
me tocas.
Somos um só corpo,aberto
a aplusos que do outro lado
exalam

terça-feira, novembro 02, 2004


foto cedida por João Garcia Barrreto

Ali desliza na pele do rio o carinho que te encontrará junto ao mar